Faleceu no início de agosto, em Moscou, aos 89 anos, o grande escritor russo Alexander Soljenítsin, equiparado aos maiores daquela língua, Tolstoi e Dostoievski. Sua fama adveio, entretanto, de um relato relacionado a um dos campos de concentração soviéticos – Um dia na vida de Ivan Denisovich (1962). Essa publicação tornou-se possível devido ao breve afrouxamento da censura que se seguiu à morte de Stalin (1953) e à denúncia de seus crimes, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956). A hipótese da existência de campos de trabalho forçado, na Rússia Soviética, vinha sendo aventada no Ocidente a partir da inferência da produção de certas matérias primas (carvão, por exemplo) em locais onde não se tinha notícia da presença de empresas dedicadas ao mister. Foi tida à conta de manifestação anti-comunista, inclusive por conhecidos intelectuais franceses. Soljenítsin pos fim às dúvidas. Dois outros de seus livros completaram o quadro: 1º) Arquipélago Gulag, em três volumes, publicados no Ocidente em 1973, o que seria tomado como pretexto, pelo governo, para cassar a sua cidadania e expulsá-lo do país, o que ocorreria logo a seguir, em 1974; e, 2º) O Primeiro Círculo (1968). O primeiro desses livros reconstitui a localização e mapeia os principais dentre os campos de concentração, correspondendo a palavra Gulag à sigla com que eram designados em russo. O título do segundo inspira-sena obra clássica de Dante, que imaginou teria o inferno um “primeiro círculo”, destinado a acolher as grandes personalidades anteriores ao cristianismo, assim poupados dos terríveis castigos experimentados no inferno propriamente dito. A obra trata de uma prisão onde se encontravam matemáticos e cientistas (condenados pela condição de dissidentes), com a incumbência de elaborar um código que permitisse classificar a voz humana, a exemplo do que ocorria com a impressão digital. Tinha em vista permitir a fácil identificação de eventuais opositores ao regime em repartições selecionadas, onde seriam gravadas todas as conversas. Os textos do autor logo sobressaíram pela notável qualidade literária, o que lhe valeria o Prêmio Nobel de Literatura, sendo que, ainda vivendo na Rússia, as autoridades não lhe permitiram ir a Estocolmo recebê-lo. Estávamos em 1970. No ano anterior, em represália pela publicação de O Primeiro Círculo, foi expulso da União dos Escritores Soviéticos. Tratou-se de um gesto simbólico e indicação ao Ocidente de que a época das “liberalidades” –embora tênues do ponto de vista ocidental havia chegado ao fim. Fechadas as portas editoriais na Rússia, Soljenítsin obteve o clandestino envio à França dos originais do mencionado Arquipélago Gulag, o que lhe valeu a expulsão do país, como se indicou. Soljenítsin concluiu sua formação acadêmica na Universidade de Rostov e tornou-se oficial do Exército Vermelho. Nessa condição participou da Segunda Guerra. Era considerado como pessoa de sólida formação científica. Terminada a conflagração, tendo observado o desenrolar dos combates com o olhar de especialista, entendeu que deveria colocar por escrito suas observações, em geral elaboradas de ponto de vista crítico. Tanto bastou para ser condenado a trabalhos forçados em campo de concentração situado na Sibéria, no próprio ano de 1945. Em 1953, sua pena é convertida em exílio por três anos. Na abertura que se seguiu à morte de Stalin, teve lugar a revisão desse tipo de processo, de que foram vítimas centenas de intelectuais, medida que beneficiaria a Soljenítsin. Passa a viver no interior da Rússia (Ryazan) Ao tempo em que estudava na Universidade, passou a acalentar o projeto de elaborar livro, no estilo de Guerra e Paz, de Tolstoi, tomando por base a Primeira Guerra. Como Tolstoi, tomaria um personagem central a partir do qual descreu tipos marcantes, fixando imagem extraordinária da sociedade russa de seu tempo. Essa precisamente viria a ser o que consideraria como a sua obra fundamental, que obedeceria ao título geral de A Roda Vermelha, concluída em 1971. Soljenítsin era partidário da tradicional corrente de pensamento, constituída pelos que se consideravam eslavófilos, isto é, contrapunham a cultura russa à ocidental. Assim, embora preso e expulso da Rússia Soviética em 1974, tendo a cidadania cassada e vindo a viver nos Estados Unidos, jamais fez qualquer concessão ao estilo de vida do Ocidente. Deste modo, logo após o fim da União Soviética, tendo sido restaurada a cidadania, regressou à Rússia, em 1994. A exemplo de Tolstoi, que também se envolveu em polêmicas alheias à esfera literária, Soljenítsin passará à história como o criador de personagens imorredouros, através dos quais deu a conhecer uma fase da história da humanidade, tomando por base o solo russo, sem embargo da natureza política, de parte da sua obra, que igualmente sobreviverá por seu valor estritamente literário.
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